Economia da Informação

O dramaturgo George Bernard Shaw costumava dizer que se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã e trocarmos as maçãs, continuaremos ambos com uma maçã, mas se eu tenho uma idéia e você tem uma idéia e trocarmos nossas idéias, então cada um de nós terá 2 idéias. Esta metáfora que parece óbvia representa bem o princípio da economia da informação.

A economia classifica a informação como um bem público, cujo consumo é indivisível e não rival. Na prática, isto significa que se temos apenas uma maçã e eu comer toda a fruta, você ficará sem nada. Este é um consumo rival, pois o número de maçãs é limitado. Já as nossas idéias podem ser “consumidas”, por assim dizer, por várias pessoas sem que seja necessário privar alguém. Isto acontece porque a informação pode ser reproduzida livremente e sem custo. Então, como definir o preço de uma idéia?

Na economia clássica, dois fatores são os principais responsáveis pela definição do preço de um bem: custo de produção e relação oferta/demanda. Vamos às maçãs: o custo de produção é o custo envolvido para que aquela maçã chegue até você, desde o investimento em mão de obra, fertilizantes até o frete do caminhão e a barraquinha na feira. Ou seja, se o custo de produção de uma maçã foi de R$ 1,00, o preço dela na feira será próximo disso, variando conforme a procura por maçãs. Quanto maior for a demanda, maior será o preço.

No entanto, se o seu feirante vendesse idéias esta relação seria mais complicada. Isto porque, para vender o “produto”, ele teria que te contar qual é a idéia antes de você decidir se quer pagar por ela. Pagando ou não, nada impede que você conte a outros vizinhos sobre ela e acabe com a barraquinha dele. Para garantir a remuneração dos “vendedores de idéias” é que foram criadas as leis de proteção à propriedade intelectual. Estas leis simulam a escassez do produto no mercado, impedindo o livre acesso à informação e punindo reproduções não autorizadas. Assim, as idéias se aproximam das maçãs e podem seguir as mesmas regras de comércio e definição de preço, gerando um estímulo econômico para que sejam produzidas.

Ao longo de décadas a indústria passou a desenvolver técnicas avançadas para baratear a reprodução e distribuição dos chamados bens de informação. Livros que eram impressos por prensas passaram a ser reproduzidos por impressoras super velozes; discos de vinil, cujo processo de fabricação era lento e custoso, deram lugar aos CDs, práticos e mais baratos. À medida que a reprodução se modernizava, o investimento exigido pelas novas máquinas que permitiam a produção em larga escala tornava-se maior, fazendo com que o mercado se concentrasse em algumas poucas empresas que eram capazes de produzir muito e lucrar ainda mais. Apesar do investimento inicial maior, ao final do processo produtivo o custo unitário de cada livro ou disco tornou-se menor.

Porém, a popularização da Internet e dos computadores pessoais alterou este fluxo. O custo de reprodução despencou, pois já não dependia de um suporte físico – como o papel dos livros ou o plástico dos CDs. Hoje, tudo é digital e armazenado em discos rígidos mais baratos e com capacidades cada vez maiores. A distribuição pode ser feita digitalmente via Internet, praticamente sem custos, permitindo que indivíduos troquem arquivos entre si através da rede . As leis de propriedade intelectual são de difícil aplicação neste cenário, uma vez que a distribuição e reprodução são feitas de forma descentralizada. E, sem o suporte das leis, voltamos ao dilema do Sr. Vendedor de idéias que não conseguia cobrar por sua mercadoria.

Os custos de produção também diminuíram bastante com a introdução de ferramentas online, que permitem que qualquer um com acesso à Internet crie e publique textos, software, vídeos, fotos e músicas em tempo real. Isto fez com que cada vez mais pessoas distribuíssem suas criações de graça na Internet, aumentando a oferta deste tipo de conteúdo e conseqüentemente pressionando os preços para baixo. Alguns críticos argumentam que isto favorece a disseminação de conteúdo amador e de baixa qualidade, por não dar estímulos econômicos para que profissionais produzam e distribuam sua obra. Outros rebatem, dizendo que há motivações não econômicas envolvidas no processo, como benefícios de rede, reconhecimento, status ou apenas entretenimento.

O ponto pacífico entre praticamente todos os envolvidos é que o modelo de negócio atual, apoiado nas leis de direitos autorais vigentes, não resistirá por muito tempo. A indústria do entretenimento vem sofrendo um grande desgaste, não apenas pelo declínio nas vendas mas também por incontáveis processos judiciais contra seus próprios consumidores em disputas por propriedade intelectual. Em meio a tudo isso, alguns pioneiros testam novas estratégias para sustentar a comercialização da informação, como a publicidade (nos blogs, por exemplo), a prestação de serviços (serviços que cobram assinatura, como Last.fm) ou mais recentemente o modelo de “pague o quanto quiser”, adotado por algumas bandas como o Radiohead e o Nine Inch Nails. Ainda estamos longe de saber qual será o modelo que a indústria irá adotar, mas o simples fato de estarem sendo testados já é um grande passo.