Evangelismo Tecnológico

Estava eu num evento técnico (sem entender muita coisa, enfim, já que não sou técnico) quando finalmente encontrei algo que eu entendia: numa roda de puffs espalhados pela sala, um rapaz juntou uma rapaziada pra conversar sobre web 2.0.

Não que eu entendesse tanto do assunto (e se alguém diz que entende, desconfie), mas eu tinha histórias pra contar e um bom par de dúvidas pra por na roda. A roda estava meio tímida, mas eu fui me envolvendo e em cinco minutos a conversa ia de vento em popa.

Quando o papo acabou, o tal rapaz chegou pra mim e disse: acho que temos uma vaga pra você. Resultado: algumas semanas depois estava eu na posição de User Experience Evangelist na empresa. Não era a primeira vez na minha carreira em que eu assumia um cargo absolutamente inédito. Na verdade, minha carreira na área interativa começou quando não havia carreira e muito menos área interativa. Tudo era inédito. De 1996 pra cá eu fui me reinventando à medida em que o próprio universo digital foi se desenhando. Ou você acha que havia escola de webdesign antes de haver web? Sou do tempo em que internet nem mídia era. Banner veio depois.

Pensando bem, esse papel não me era tão estranho assim. São anos e anos mostrando aos quatro ventos a força e o valor da internet, anos e anos de palestras, apresentações, artigos, debates defendendo essa bandeira interativa dentro de agências, empresas, faculdades. E quer saber? Comparado com os primórdios - quando ninguém acreditava nisso - defender internet hoje é moleza.

Mas o que eu passei a fazer, exatamente? Virei garoto-propaganda de uma marca? Não. Recebia ordens do marketing ou da assessoria de imprensa? Não. Vendia algum produto? Não. Se esperassem isso de mim eu não teria aceitado. Meu papel era maior do que esse, e pra entender direito vale a pena pensarmos em algo mais amplo: plataformas.

Empresas de tecnologia criam plataformas. Microsoft, Apple, Google, todas criam plataformas para que desenvolvedores façam coisas inovadoras que atraiam consumidores para aquela plataforma. Uma plataforma só cresce se os desenvolvedores acreditam e apostam nela.

E o que distingue uma plataforma da outra? São questões técnicas, funcionalidades, bits e bites? Não. Sua história passada? Nem tanto. Cada plataforma se define sobretudo por sua visão de futuro. É essa visão de futuro que norteia o desenvolvimento dessa plataforma e é essa visão de futuro que faz com que um desenvolvedor a escolha, pensando na sua carreira, pensando no seu próprio futuro.

O problema é que visão não é algo tão visível, não mesmo. Ainda mais nos tempos de hoje, onde focamos tanto no que fazemos que não enxergamos mais nada. Andamos todos tão atentos que vivemos distraídos. É pra chamar a atenção de todos para a visão mais ampla, pra contar a história toda (sobretudo os próximos capítulos) que servem os evangelistas.

Lembra do Guy Kawasaki? Era evangelista da Apple. Sabe o Vint Cerf, o cara do TCP/IP? Evangelista do Google. Yahoo tem evangelista também, já conheci um, simpaticíssimo, e fui na prática um evangelista informal do Yahoo. O trabalho de todos eles é muito parecido: trazer para a conversa uma determinada visão de futuro e, sobretudo, trazer a conversa para um nível mais amplo, mais profundo, mais rico. É esse nosso trabalho: conversar abertamente, aprendendo sobre o presente de cada um e abrindo caminho para novos futuros. Com que eu conversei? Com todos os que se interessam pela inovação na interatividade, de agências a eventos, de universidades a start-ups, de grandes empresas à Campus Party.

Meu foco era e ainda é Experiência do Usuário, uma disciplina que, a meu e a nosso ver, tem e terá uma importância crescente em tudo o que se faz com tecnologia. É sobre isso que eu converso, sobre o valor da experiência rica e relevante propiciada pela tecnologia. Conversamos sobre isso porque é assim que imaginamos o futuro. Mais do que isso: é esse futuro que estamos ajudando a tornar realidade através do talento e paixão de desenvolvedores e criativos do Brasil inteiro.

É isso o que eu sempre fiz: compartilhar a paixão que me faz visionário.