Jornalismo-de-um-homem-só

Quase sempre, quando me encontro com estudantes de jornalismo e eles me pedem uma dica, digo para que construam a sua própria reputação e marca individual. Esse é o mais importante ativo que um jornalista pode ter.

A digitalização trouxe diversas mudanças para o jornalismo. Da máquina de escrever para o computador. Dos grandes assuntos para assuntos de nichos. E uma mudança bem mais sutil e quase imperceptível - das marcas institucionais para as marcas individuais. Das vozes institucionais para as vozes individuais.

É quase um caminho sem volta o crescimento das vozes individuais no jornalismo. Profissionais que, apoiados em ferramentas de relacionamentos e de publicação de conteúdo, como blogs, microblogs e redes sociais, constroem ou reforçam o seu próprio nome, a sua própria marca, a sua reputação, sem precisar bater na porta de grandes empresas de jornalismo.

Na geração anterior, para criar uma reputação e ter a sua voz ecoada, um jornalista precisava entrar para uma grande empresa de mídia. Hoje nem tanto. Sozinho pode construir o seu nome.

Não  é sem motivos que o State of Media 2009, relatório anual sobre jornalismo e consumo de informação, apontou que uma das tendências nos próximos anos, no jornalismo, seria a migração de marcas institucionais para marcas individuais.

Com a rotatividade crescente nas empresas de jornalismo, a ideia de desenvolver uma voz individual se mostra ainda mais atraente.

Na realidade, marcas individuais não são uma novidade no jornalismo. Temos os colunistas há tantos anos que imprimem a sua voz individual. Escrevem livros, viram colunistas na TV. Enfim, gerenciam e constroem a sua própria marca profissional.

O que acontece é que hoje o leitor está mais disposto a ouvir vozes individuais. A própria ideia de ouvir e interagir com vozes não-institucionais faz todo sentido se levarmos em conta o conceito de que a web é uma rede de pessoas. Seguimos pessoas e não instituições.

Tal panorama abre caminho para um dos grandes dilemas na área de gestão  de empresas de jornalismo, que se dá entre marcas institucionais e marcas individuais.

Empresas de mídia tentam inibir ou proibir o uso de microblogs, redes sociais e blog, evitando, assim, que o jornalista desenvolva a sua própria marca e voz independente do veículo ao qual está ligado.

Parece ser apenas uma questão burocrática, de gestão interna, sobre o uso ou não de uma ferramenta mais “moderna” de comunicação, mas por trás dessa discussão, há um tema maior, o fato de que, para determinado público, marcas individuais podem se tornar maiores que marcas institucionais no jornalismo.

De olho nesse fenômeno, inibir totalmente o uso dessas ferramentas poder ser  visto como um erro. Jornais existem por que são hubs de talentos, reúnem os melhores escritores, as melhores vozes (individuais).

Sem contar que, na medida em que os jornais ficam virtuais e o seus bens físicos passam a perder valor, o capital humano torna-se um dos principais ativos. Seus colunistas, blogueiros repórteres especiais. Enfim, suas marcas individuais. 

É isso o que pode diferenciar um jornal de outro. Quanto melhores marcas individuais um jornal agregar, melhor.

Por outro lado, as empresas de jornalismo apresentam o legítimo medo de que a marca individual se torne maior de que o veículo e o jornalista acabe dispensando este último, levando junto anunciantes.

Na realidade, essa precaução é mais um sinal de que as empresas e os jornalistas precisam rever a sua relação. Às vezes, a antiga dinâmica de relacionamento pode não funcionar tão bem.

A partir dessa ideia de marcas individuais surgiram, nesta década, diversas vertentes no jornalismo, garantindo um momento até que de criatividade na área, como o “backpack journalism” ou “jornalista de mochila”. É o jornalista multimídia que faz uma cobertura móvel sozinho com o uso de ferramentas digitais – celulares para produzir vídeos, laptops para transmitir e editar o conteúdo.

Esse conceito ganhou espaço durante a cobertura da Guerra no Iraque, em 2003. Ao invés de trabalhar com uma equipe grande numa zona conflito, opta-se por um jornalista somente, ganhando assim, além de uma voz individual sobre o conflito, mais agilidade, principalmente em zonas de conflitos onde é necessária uma certa mobilidade.

Um dos pioneiros na aplicação desse conceito foi o jornalista Kevin Sites, que melhor simboliza a ideia de voz individual no jornalismo. O profissional que não precisa depender tanto de nenhuma grande infraestrutura para ter a sua própria voz ecoando em meio a sua audiência.  É o jornalismo de um homem só.